Existir é igual a Repetir?

setembro 6, 2016

“É extremamente difícil para alguém ficar fazendo uma coisa porque todo mundo é perturbado por tudo. Tendo feito alguma coisa você quer naturalmente fazer aquilo de novo e se você faz aquilo de novo você sabe que está fazendo aquilo de novo e não é mais interessante. Isto é o que preocupa todo mundo, alguém na medida em que faz alguma coisa naturalmente faz isso de novo, seja um crime seja uma obra de arte ou uma ocupação diária ou qualquer coisa como comer e dormir e dançar e lutar. Bem tendo você feito isso você faz de novo e saber que está fazendo isso de novo estraga o seu vir a existir (…)” GESTRUDE STEIN.

 

as fases da escrita

abril 7, 2016

Ler Karl Ove Kaunasgard me faz ter vontade de escrever sobre a minha vida de um jeito que eu não estou acostumada. Eu sempre escrevo sobre a minha vida, mas sempre com um olhar oblíquo, ressaltando os aspectos mais sombrios (aquilo que não entendo bem) ou sobre os mais sórdidos (aquilo que me envergonha). Trocando em miúdos: sou uma escritora cristã cheia de culpa que usa a escrita como expiação, pero no mucho

Quando escrevo sobre minha vida, o que está sob perspectiva é o pólo negativo da existência, minhas vulnerabilidades e meus problemas. Nunca escrevo sobre momentos felizes, nunca escrevo sobre o amor (apesar de só escrever sobre relações amorosas). Tive um parto feliz e pleno (nunca usei esta palavra antes, nunca!) mas não tenho vontade de escrever sobre ele. No entanto, tenho vontade de escrever sobre a pânico que tomou conta do meu corpo depois que Joaquim chegou em casa. É como se na escrita (e partir dela) eu pudesse praticar a melancolia – esse meu modo implícito de ser, não soberano, mas implícito.

Kaunasgard também acredita que a escrita é um exercício de introspecção rumo ao pensamento. Eu não conheço acesso mais vertical ao pensamento do que o ato de escrever. Mas o material dele é mais vasto. É a vida dele (íntima, atormentada, confusa)  mas dezenas de outras coisas que continuam sendo a vida dele (os outros na vida dele, os filhos, os amigos, os parentes, o trabalho…) mas que não são exclusivamente o mundo interior dele. Ele amplia o campo de visão e escrevo sobre tudo, ele escreve sobre qualquer cosia.

Sempre escrevi por imitação. Sempre escrevi querendo dialogar com os escritores que admiro e não vejo nenhum problema nisso. O mimetismo é uma forma legítima de amor.  Agora, queria me apropriar desse jeito de olhar para a própria vida que é o mundo e escrever sobre ela. Em outros momentos, quis apenas escrever bonito.

Agora, isso não me interessa mais.

 

verão

outubro 25, 2015

De madrugada
levantei para ver
a chuva
ela não estava lá

Hoje eu não quis trabalhar
mas quis
tomar meia duzia de banhos
frios

processo 01

março 1, 2015

É isso:

http://www.buala.org/pt/jogos-sem-fronteiras/escrever-uma-contra-geografia

“A prática do ensaio implica uma intensa reflexão sobre si (auto-reflexão na relação da produção de imagem, não de mim como artista) pois não cessa de interrogar o ato de criação de imagens e de produção de sentido” Ursula Biemann, em Contra-Geografias.

* no meu caso troco a palavra imagem por textos.

A cidade é uma só Quando meu filho nasceu eu fiquei um mês inteiro dentro de casa. Só saía para levá-lo ao posto de saúde. F comprava comida, remédios, pomadas e eu me afogava em dores emocionais e físicas intensas e desconhecidas: o peito rachado, os pontos que inflamaram e o corpo todo aprendendo a carregar, no colo, um bebê que durante nove meses viveu na água. Quando eu andei de ônibus pela primeira vez, depois desse período curto para a maioria das pessoas, mas amplificado pela experiência macroscópica de ser mãe, eu sentia que estava dentro de uma nave espacial, sobrevoando este lugar inventado e estranho que é uma cidade. Tudo aquilo que reconhecemos como espaço urbano estava desajustado. Não era um problema de foco, mas sim uma questão de ultra sensibilidade visual. Tantas pessoas na rua, fazendo tantas coisas, atravessando de um lado para o outro, segurando bolsas e sacolas e entrando em portas abertas, grandes e pequenas, e saindo dos ônibus e entrando nos carros e mais pessoas dentro de tantos carros e as ruas, tantas ruas, apinhadas de mais pessoas. Eu pensei: por que existem tantas pessoas? para que elas servem? cada uma delas? Naquela viagem, a cidade era uma maquete habitada por playmobils de todas os tipos e eu uma extra-terrestre fascista e ágrafa. Eu não tinha vocabulário para compreender uma coisa tão simples. Uma vez, eu fiquei um mês no mato e quando voltei para a cidade achei tudo tão feio e duro que pensei: fudeu! Como vou reaprender a viver aqui. Um dia acordei de manhã e o piso do meu quarto estava coberto de flores. Elas entraram de madrugada, enquanto ventava. A vidraça ficou aberta e eu dormi – sempre o vento trazendo o mundo até mim- eu entendi que aquilo era a delicadeza da árvore, lembrei da Ná Ozetti, olhei para o céu e estava azul, chorei um pouquinho. Pronto, o fio invisível que liga nossos afetos às feições da cidade estava refeito. Desta vez, no meu embate com a cidade, o que me assustou, não foi a feiura de um lugar que maltrata e intimida diariamente seus moradores, a sujeira, as cercas elétricas, a violência, não a violência das estatísticas dos programas políticos, mas uma violência mais sutil como a de um motorista que acredita que o carro dele tem mais direitos que um carrinho de bebê. O meu espanto foi descobrir que na cidade existem outras pessoas, existem até outros bebês. Este foi o primeiro furo nesta bolha que é o começo da maternidade, depois vieram outros. Alguns têm o tamanho de uma cratera – cabe tudo dentro da gente. Os dias foram passando e eu entendi que a cidade continua a mesma: bonita e feia, familiar. É aqui que eu vivo e a “a cidade é uma só”. O carro precisa aprender a conviver com o carrinho de bebê, eu com você e todos nós com o terremoto que é cada

dezembro 3, 2014

Aa

Para Leonilson, com carinho.

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Comecei esse caderno em julho, terminei hoje. Dois meses longe do desenho, dois meses dentro do coração.

setembro 12, 2014

Eu que sempre tive insônia e já tomei toda sorte de remédios para dormir – dos mais naturais e inofensivos como o clássico chazinho de melissa aos tarja pretas vendidos sem receita em farmácia de bairro – nunca pensei que o sono fosse uma questão política ( sempre achei que insônia fosse culpa, como disse Blanchot). Mas tudo mudou depois de ler a matéria O Sono Acabou, na Piauí de setembro.

“Em sua profunda inutilidade e intrínseca passividade, com perdas incalculáveis para o tempo produtivo, a circulação e o consumo, o sono estará sempre a contrapelo das demandas de um universo 24/7 ( ficar acordado 24 horas por dia, os sete dias da semana). O fato de passarmos dormindo um bom periodo da vida, libertos de um atoleiro de carências simuladas, subsiste como uma das grandes afrontas humandas à voracidade do capitalismo contemporâneo. O sono é um hiato incontornável no roubo de nosso tempo pelo capitalismo. A maioria das necessidades aparentemente irredutíveis da vida humana – fome, sede, desejo sexual e recentemente a necessidade da amizade – se transformou em mercadoria ou investimento. O sono afirma a ideia de uma necessidade humana e de um intervalo de tempo que não pode ser colonizado nem submetido a um mecanismo monolítico de lucratividade, e desse modo permanece uma anomalia incongruente e um foco de crise no presente global (…)” Jonathan Crary.

setembro 5, 2014

atravessar a porta 
e deixar o filho dentro
ser turista na própria cidade
o ônibus, uma nave espacial
para onde todas essas pessoas vão, o que fazem, elas cuidam de bebês, como vivem?
não consigo parar de cantar mentalmente carneirinho, carneirão…
depois lembro do Arnaldo Antunes que disse que “todo mundo já foi neném”
entro na loja e compro roupas para o filho
depois, entro na livraria e compro um livro, de poesia
contra o cansaço, a rotina e a solidão, leio.

setembro 5, 2014

Para o menino que nasceu na noite mais fria do ano, rápido como um raio, gigante e valente.

Criança

(Ana Martins Marques)

Você veio para a vida.
Nela há coisas redondas
coisas de colorir
coisas de ser.

Há coisas de doer
e pensar
e patos e poemas e cidades
e a laranja e o mar

Lugares varridos pelo sol
e nomes para quase todas as coisas
e coisas imensas sem nome
e imensas coisas de esquecer.

Coraçãozinho, coraçãozinho
um bicho triste ficou alegre
quando você chegou.

u

julho 2, 2014

Minha melancolia é tão silenciosa que mais parece um segredo.
Não está na superfície. Não se revela no cotidiano das minhas conversas – sou discretíssima – muito menos nos meus encontros. Minha melancolia é minha personalidade e minha intimidade. É minha meia verdade, a outra metade é uma euforia intensa e infantil.
Por isso, preciso tanto expressá-la. Cultivo minha melancolia como quem cuida de uma roseira, com admiração e cuidado, para não me cortar demais.